Uma introdução à teoria da geopolítica crítica

A Geopolítica Crítica trata-se de uma teoria que emergiu entre os anos 80 e 90, como parte da viragem cultural, linguística e construtivista que ocorreu nas Ciências Sociais e na Geografia Humana (Moisio, 2015). Por conseguinte, a teoria olha para a Geopolítica como um discurso, isto é, uma maneira política e culturalmente variada de descrever a geografia e a política internacional (Tuathail, 2003). 

De modo a compreender melhor esta ideia é necessário, primeiramente, atentar brevemente à evolução histórica da Geopolítica, um conceito que, ao longo dos tempos, se viu associado a algo mais do que as dimensões geográficas do poder político, por consequência de mudanças estruturais na ordem mundial (Dalby, 2010; Tuathail, 2003). Foi a análise crítica desta exposição que levou autores como John Agnew, Simon Dalby e Gearoid O’Tuathail a fundar a teoria em mãos.

A Geopolítica, como conceito e prática, emergiu em finais do século XIX e inícios do século XX por meio de discursos imperialistas de vários teóricos: homens brancos e conservadores que a entendiam como uma forma de poder e de conhecimento instrumentalizada para promover o expansionismo de Estados e a proteção de Impérios. Autores como Alfred Mahan, que tratava de temas como a importância da geografia para o aumento do poder marítimo de Estados expansionistas, e Friedrich Ratzel, que escreveu sobre a relação entre o território e a Nação no desenvolvimento do poder nacional de Estados imperialistas, mostram-se como exemplos (Tuathail, 2003). 

Com o início da Guerra Fria, a Geopolítica deixou de se focar na influência da geografia na política externa dos Estados imperialistas e passou a concentrar-se no antagonismo entre os Estados Unidos da América e a União Soviética, assim como na interligação entre a geografia e a ideologia que a disputa entre as duas superpotências fez surgir, devido à construção de blocos de influência (Tuathail, 2003). De facto, nesta época, várias das terminologias geográficas utilizadas para descrever o mapa-mundo eram, igualmente, terminologias ideológicas: o bloco americano, por exemplo, percecionava-se como uma comunidade de Estados democráticos que representavam o pináculo da civilização e do desenvolvimento (o “free world”), em oposição ao Oriente, descrito pelo Presidente Reagan como “totalitarian world” e “the evil empire”; em contraste, os discursos do bloco soviético representavam a União Soviética como a “people’s democracy” e o Ocidente como “capitalist and imperialist”. Desta feita, denota-se que a Geopolítica da Guerra Fria se focava numa lógica de “nós” versus “outros” (Tuathail, 2003).  

Com o fim da Guerra Fria, no início dos anos 90, a Geopolítica viu-se renovada como disciplina, desta vez em volta de um discurso de surgimento de uma nova ordem mundial. Teóricos como Francis Fukuyama, Edward Luttwak ou Samuel Huntington ofereceram diferentes visões e perspetivas sobre quais seriam os contornos desta nova ordem mundial. Fukuyama, por exemplo, explicou na sua obra de 1992, “O Fim da História e o Último Homem”, que a Humanidade estava a chegar “ao fim da história”, porquanto o liberalismo ocidental finalmente triunfara na maior parte do mundo. Assim, assistiu-se, novamente, ao hubris do Ocidente, que se via como exemplo a seguir relativamente ao resto do Mundo (Tuathail, 2003). 

Em todas as épocas referidas denota-se a presença dos chamados “experts” – académicos e políticos que comentam e participam regularmente nas atividades do Estado – e a importância de determinadas “verdades” sobre a política internacional que os mesmos proclamam (Kuus, 2010; Tuathail, 2003). É a proclamação destas “verdades” que lhes oferece a denominação de “experts”, uma vez que os Estados tendem a apoiar e a patrocinar os intelectuais que defendem visões ideológicas que favorecem os seus interesses, marginalizando outras perspetivas. A disseminação destas visões é de grande relevo para os Estados pois protege e conserva as suas estruturas e os seus discursos de poder (mitos de um suposto “excecionalismo” do Estado, por exemplo), legitimando as suas ações; consequentemente, os “experts” e as suas “verdades” acabam por ser promovidos pela academia, pelos media e pelos próprios Estados (Tuathail, 2003). A este respeito, sublinhe-se a ideia do filósofo francês, Michel Foucault: “(…) the exercise of power perpetually creates knowledge and, conversely, knowledge constantly induces effects of power”. Por outras palavras, o exercício de poder encontra-se profundamente interligado à produção de conhecimento e de discursos (Tuathail, 2003). 

É desta lógica que a Geopolítica Crítica nasce, com o objetivo de revelar as dinâmicas políticas por detrás do conhecimento geopolítico produzido, uma vez que não acredita que este possa ser universal ou desligado de qualquer influência política, ideológica ou social. Este é, portanto, o motivo pelo qual a teoria é definida como um discurso que tenta estabelecer as suas próprias verdades e que faz parte da política (Tuathail, 2003). Por conseguinte, estes discursos não são mais do que práticas de espacialização política e cultural que os Estados e os seus “experts” realizam, com base em ideias e assunções sobre outros espaços; ou seja, são visões socialmente construídas através das quais o mundo passa a ser entendido, e que, posteriormente, influenciam as práticas dos Estados. Como tal, o objetivo da Geopolítica Crítica é escrutinar estas ideias e assunções, bem como compreender como é que as “verdades geopolíticas”, resultantes das mesmas, foram produzidas (Moisio, 2015). 

Desta feita, não surpreende que a Geopolítica Crítica se ocupe, igualmente, do estudo da construção de identidades nacionais e das práticas de espacialização política e cultural, de inclusão ou de exclusão, que lhe estão associadas. De acordo com esta teoria, as identidades nacionais são constituídas por poderosas narrativas de segurança nacional, significando isto que a Geopolítica é um processo ideológico de construção de fronteiras que procura demarcar aquilo que é o espaço doméstico (o “nacional”, o “nós”) daquilo que são as ameaças exteriores (o “estrangeiro”, os “outros”), assim como excluir o que representam a nível espacial e cultural. Como tal, a Geopolítica Crítica procura investigar como é que as identidades nacionais são narradas e apresentadas em várias práticas de demarcação de fronteiras (Moisio, 2015). A Guerra Fria e a Global War On Terror, durante a qual George W. Bush promoveu a retórica “with us or with the terrorists”, constituem alguns dos exemplos mais óbvios (Dalby, 2010). 

 

Para terminar, vale a pena apresentar algumas das ramificações da Geopolítica Crítica. Até agora o foco tem estado, implicitamente, na Geopolítica formal, que analisa as “verdades geopolíticas” dos ditos “experts”, e na Geopolítica prática, que se encarrega do estudo dos raciocínios dos suprarreferidos (Kuus, 2010). No entanto, tem havido um crescente interesse também na Geopolítica popular, que difere dos ramos anteriores por argumentar que a Geopolítica Crítica não se deve focar apenas no estudo dos discursos e argumentos dos “experts”, mas também na circulação de narrativas e na construção de discursos na cultura popular, uma vez que esta detém uma enorme capacidade de influência no pensamento dos povos por estar presente no seu dia-a-dia, acabando por funcionar como um veículo para a disseminação de discursos geopolíticos (Dittmer & Gray, 2010). Assim, este ramo ocupa-se do estudo de produtos visuais e não-visuais como jornais, filmes, séries, desenhos animados, banda desenhada, entre outros (Moisio, 2015). Porém, existem já autores que defendem que a Geopolítica Crítica, especialmente a Geopolítica popular, deve evoluir e abandonar a ideia de que são apenas os “experts” e os Estados que produzem discursos geopolíticos, disseminados através cultura popular. Segundo estes, o futuro da Geopolítica Crítica está na ideia de que o poder é difuso, ou seja, na ideia de que as audiências são, igualmente, consumidoras e produtoras de discursos geopolíticos (Dittmer & Gray, 2010; Moisio, 2015). No entanto, o estudo da cultura popular através desta perspetiva é muito recente, tendo ainda um longo caminho a percorrer.

Madalena Matoso
Aluna de Mestrado em Estratégia

ISCSP

Bibliografia

Dalby, S. (2010). Critical Geopolitics and Security. Em Burgess, J. P. The Routledge Handbook of New Security Studies. London: Routledge. 50-58.

 

Dittmer, J., & Gray, N. (2010). Popular Geopolitics 2.0: Towards New Methodologies of the Everyday. Geography Compass.

 

Kuus, M. (2010). Critical Geopolitics. Em Denemark, R. A. & Marlin-Bennett, R. The International Studies Encyclopedia. New Jersey: Wiley-Balckwell. 683-701.

 

Moisio, S. (2015). Geopolitics/Critical Geopolitics. Em Agnew, J. (et al.) The Wiley Blackwell Companion to Political Geography. Oxford: John Wiley & Sons Ltd. 220-234.

 

Tuathail, G. Ó. (2003). Thinking Critically about Geopolitics. Em Tuathail, G. Ó. (et al.) The Geopolitics Reader. Nova Iorque: Taylor & Francis e-Library.