Conflito Indo-paquistanês

                                                                                                         As opiniões expostas neste artigo vinculam exclusivamente os seus autores.

O impacto da rivalidade indo-paquistanesa extravasa o plano bilateral, alongando-se ao plano regional e internacional. O epicentro desta rivalidade são as reivindicações territoriais e simbólicas pela região de Caxemira, localizada a noroeste da Índia e etnicamente muito diversa.

Para um entendimento das dinâmicas atuais, é necessário recuar a 1947. Este ano simbolizou o fim do domínio britânico sobre os territórios da atual Índia e do Paquistão e a criação de dois Estados independentes, pela via do Independence Act: a Índia, de maioria hindu e o Paquistão, de maioria muçulmana. O estabelecimento de novas fronteiras foi alvo de forte contestação e inconformidade, traduzidas em violência generalizada — em causa estava a região de Caxemira.

Sendo esta de maioria muçulmana, o seu marajá hindu optou por juntar-se à Índia em troca de apoio, após a invasão desta região pelo Paquistão (BBC). A inserção de Caxemira no Estado Indiano provocou uma sangrenta guerra entre os dois Estados, sendo que o cessar-fogo só chegou em 1949 pelos esforços da ONU. Na prática, os dois estados dividiram a região, controlando apenas partes do território. Estes territórios estão divididos por uma fronteira de facto — a Linha de Controlo.

As disputas continuaram ao largo do século XX, com picos maior tensão em 1965, 1971 e 1999. O conflito assumiu novos contornos e Caxemira é agora uma região dividida e controlada por três potências nucleares: Índia, Paquistão e China. Embora mantenham um frágil cessar-fogo desde 2003, os desafios à segurança local e regional mantêm-se, já que o risco de confronto militar é alto. Vejamos os acontecimentos mais recentes.

Em 2014, negociações de paz entre os dois Estados estiverem eminentes, mas rapidamente se dissiparam. O otimismo manteve-se em 2015, quando o líder indiano visitou o primeiro-ministro paquistanês, “a primeira visita de um líder indiano ao Paquistão em mais de 10 anos”. Porém, os ataques militares regressaram em 2016, com um ataque paquistanês a uma base do exército indiano. Seguiram-se inúmeros ataques militares, retaliações e atividades terroristas entre 2017 e 2019.

A ONU destaca que no meio deste ciclo de violência e terrorismo, as ânsias de independência do povo de Caxemira estão a ficar relegadas para segundo plano. A China é a principal aliada do Paquistão, sendo que os EUA estão a cooperar com a Índia, numa tentativa de manutenção de estabilidade regional. Em suma, o percurso conturbado das relações indo-paquistanesas demonstra que é pouco provável que se resolvam os diferendos entre estes dois Estados num futuro próximo, não apenas por questões territoriais, mas igualmente pelo simbolismo deste conflito.

Bárbara Teles,

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais,

Universidade Nova de Lisboa

Fontes