O conflito norte-coreano

“The conflict over North Korea’s nuclear weapons and other weapons of mass destruction programes remains one of the most dangerous and complex crises in the world (…)” (Hilpert & Meier, 2018, p. 5)

                                                                                                            As opiniões expostas neste artigo vinculam exclusivamente os seus autores. 

O conflito norte-coreano trata-se de um conflito muito complexo, embargando uma multitude de antagonismos e atores. No entanto, no seu centro encontra-se a rivalidade entre os Estados Unidos da América (EUA) e a Coreia do Norte, devido à possessão, por parte desta última, de armas nucleares. Neste sentido, num extremo encontramos Pyongyang, que procura um constante desenvolvimento do seu poder nuclear, de modo a garantir a sua segurança, que acredita estar ameaçada pelos Estados Unidos; e, no outro, encontramos Washington, de longe preparada para aceitar violações ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares ou ameaças diretas à sua segurança.

Perante esta situação de impasse, parece relevante averiguar o seu passado e entender como a alcançámos. Assim, devemos atentar ao ano de 1945, o ano de término da Segunda Guerra Mundial. Saídos vitoriosos deste conflito, os Estados Unidos da América e a União Soviética (URSS) dividiram, provisoriamente, o território da península coreana em dois, tomando como referência o paralelo 38º, uma linha imaginária que se encontra a 38º graus do equador. Consequentemente, a norte deste paralelo nasceu a Coreia do Norte, sob proteção soviética, e a sul do paralelo nasceu a Coreia do Sul, sob proteção americana. O objetivo era que, um dia, a Coreia se voltasse a reunificar-se finalmente livre, após 35 anos sob o domínio do Império japonês. No entanto, por consequência da hostilidade que rapidamente cresceu entre a URSS e os EUA e que culminou na Guerra Fria, o contrário sucedeu-se e as duas Coreias entraram em guerra em 1950.

A Guerra da Coreia terminou em 1953, porém, na Coreia de Norte permaneceu um sentimento de insegurança que, desde então, a tem levado à procura do desenvolvimento do seu poderio militar, de modo a fazer face à ameaça que acredita que os EUA representam à sua segurança. Como tal, não é de estranhar que, ao longo dos anos, tenhamos assistido a várias crises nucleares, marcadas por sucessivos exercícios militares realizados pela Coreia do Norte, com o fim de reafirmar o seu poderio militar e dissuadir os seus inimigos de a atacar.

Nos últimos anos, as tensões entre os suprarreferidos atores têm-se intensificado, devido à ascensão de Kim Jong Un como líder do regime norte coreano, porquanto este tem procurado acelerar os programas de armas nucleares e de mísseis balísticos de Pyongyang. Por exemplo, em 2017, foram realizados testes de mísseis balísticos de longo alcance com capacidade para, teoricamente, para atingir os Estados Unidos. Acrescentam-se, também, outros tipos de pressões exercidas sobre os Estados Unidos, como ciberataques.

 

Porém, como já implícito, Washington e Pyongyang não são os únicos atores envolvidos neste conflito. Também, a Coreia do Sul e o Japão se veem alvos de ameaças protagonizadas pela Coreia do Norte, através da realização de exercícios militares de armas de destruição maciça. Em adição, Estados como a Rússia e a China seguem o conflito atentamente, uma vez que uma escalada do mesmo poderá influenciar os seus interesses.

Em resposta, os Estados Unidos têm procurado travar provocações norte-coreanas através de sanções económicas aplicadas unilateralmente ou através do Conselho de Segurança das Nações Unidas. De igual modo, a Coreia do Sul, sob o mandato de Moon Jae In, tem procurado respostas não-militares para este conflito, promovendo o diálogo entre os atores envolvidos e a sua posição como mediadora das tensões.  

 

Podemos olhar para os anos de 2018 e 2019 como anos de sucesso da perspetiva sul-coreana, uma vez que se observou uma razoável redução de tensão que, de um modo geral, rodeia este conflito, graças à sua promoção de diálogo. A realização dos Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul e o convite para a Coreia do Norte participar nos mesmos, desfilando ao lado do país organizador, culminou em três cimeiras entre as Coreias e em duas cimeiras entre a Coreia do Norte e os EUA, para discutir a desnuclearização da Península.

No entanto, as negociações com os EUA fracassaram, por consequência de um impasse entre Donald Trump e Kim Jong Un. Enquanto que Washington exigia provas concretas, por parte da Coreia do Norte, do iniciar de um processo de desnuclearização, antes de suspender as sanções económicas que lhe aplicara, Pyongyang, por sua vez, exigia, primeiramente, a suspensão das suprarreferidas sanções. Assim, a época de relativa paz entre os dois atores viu-se curta e as relações entre americanos e norte-coreanos retomaram o seu já habitual antagonismo. 

Recentemente, observámos, uma intensificação destas tensões em incidentes como a destruição, por parte do regime de Kim Jong Un, do escritório através do qual as Coreias comunicavam, por parte do regime de Kim Jong Un, a 15 de julho de 2020, simbolizando o fim do diálogo na Península; e a realização de uma parada militar, a 10 de outubro de 2020, no 75º aniversário do Partido do Trabalhador, para reafirmar o poderio norte-coreano perante os olhos do mundo e dissuadir os seus inimigos de um ataque. 

Posto isto, podemos considerar que nos encontramos perante um “Paradoxo de Segurança”, sendo este um fenómeno que se sucede quando um Estado procura reduzir os seus níveis de insegurança, através de determinadas ações que, paradoxalmente, provocam uma aumento dessa mesma insegurança. De facto, se atentarmos à definição de Nicholas Wheeler e Ken Booth, “When leaders resolve their dilema of response in a manner that creates a spiral of mutual hostility, when neither wanted it.”, conseguimos, facilmente, associá-la ao caso da Coreia do Norte.

Madalena Matoso,

Estudante de Mestrado em Estratégia,
Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas

Bibliografia

Booth, K., & Wheeler, N. J. (2008). The Security Dilemma. Fear, Cooperation and Trust in World Politics. New York: Paigrave Macmilan.

Hilpert, H. G., & Meier, O. (2018). Facets of the North Korea Conflict: Actors, Problems and Europe’s Interests.

 

 

Fontes