A teoria feminista nas relações internacionais

As Relações Internacionais são caracterizadas por uma grande diversidade de teorias que tentam, de variadas e diferentes formas, explicar como funciona o Sistema Internacional. No fim da década de 1980, com o surgimento do “third debate”, que tem origem na tentativa, da parte de muitos teóricos, de tornar as RI mais abrangentes e inclusivas relativamente a pontos de vista até ali negligenciados (Balzacq & Baele, 2017), surgem os primeiros contornos daquilo em que se viria a tornar a Teoria Feminista das Relações Internacionais, enquadrada no lado pós-positivista deste debate e com o objetivo de tornar mais óbvias as falhas das teorias mainstream – ou, como as caracteriza Gillian Youngs (2004), malestream – que, segundo os teóricos Feministas, apesar de se dizerem universais e objetivas, são, na verdade, teorias construídas e baseadas na vida de homens, não do Homem (Tickner, 2006)

A teoria Feminista diverge em muito das mainstream, sendo uma das suas principais divergências a importância dada ao género. A teoria Realista, por exemplo, é centrada no Estado-Nação enquanto ator internacional e a teoria Liberal centra-se no indivíduo e no seu papel dentro das RI; já a teoria feminista vai mais longe: não desvalorizando a importância dada ao Estado e ao Indivíduo enquanto atores no Sistema Internacional, defende que é importante a criação de conhecimento com base no género e tendo em conta a perspetiva da mulher – “we need to consider women and gender in order to examine the fundamental contributions that feminist International Relations makes to the realms of theory and practice(Youngs, 2004). A framework com que as teorias mainstream trabalham é criada com base na experiência empírica daqueles que têm, ao longo dos anos, dominado a área das RI, e que são, na sua maioria, homens; no entanto, segundo a teoria Feminista, para entender as RI na sua totalidade é preciso ter em conta o género, e mais especificamente, a desigualdades entre géneros (Youngs, 2004). Christine Sylvester (1994, em Shepherd, 2009), refere-se às RI como “relations international” em oposição a “International Relations”, de modo a enfatizar a importância de relações na esfera internacional, sejam estas relações de poder ou relações entre géneros, algo que, para Laura Shepherd (2009), é um passo muitíssimo importante de se dar dentro das RI, de modo a ultrapassar a obsessão da disciplina com a guerra.

As diferenças entre as teorias não são somente no núcleo, mas também a nível da metodologia. Segundo Tickner (2006), a teoria Feminista não tem uma metodologia de eleição, estando, no entanto, de acordo quanto a um facto: a utilização de métodos quantitativos e supostamente imparciais é insuficiente e, na verdade, biased quanto ao género, pois a informação recolhida e existente não reflete de todo a vida da mulher num mundo dominado por homens. Como tal, ainda que um dos objetivos centrais da teoria continue a ser o de entender o comportamento dos Estados no Sistema Internacional, o cumprir deste objetivo é feito procurando o porquê das mulheres permanecerem, em todos os cantos do mundo, disempowered no que toca à política externa e militar (Tickner, 2006)

De modo a cumprirem este objetivo, os teóricos feministas fazem uso de análises sociológicas muitas vezes baseadas, por exemplo, na experiência pessoal de mulheres entrevistadas para determinados estudos (Tickner, 2006). Too often women’s experiences have been deemed trivial, or important only in so far as they relate to the experiences of men and the questions they typically ask.(Tickner, 2006) e, como tal, a teoria Feminista esforça-se para fazer questões diferentes, mudando o ponto de vista para aquela que é a perceção e experiência da mulher.

Como diz Laura Sjoberg (2009), “the omission of gender from work on international security does not make that work gender-neutral or unproblematic.”; o mesmo acontece dentro das RI. A teoria Feminista nasceu com o objetivo de remediar isso. 

Catarina Francisco dos Reis
Mestranda em Ciência Política e Relações Internacionais- Especialização em Relações Internacionais

NOVA-FCSH

Outras leituras

Elshtain, J. B. (1982). Feminist Discourse and Its Discontents: Language, Power, and Meaning. Signs: Journal of Women in Culture and Society, 7(3), 603-621.

 

Enloe, C. (1990). Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. California: University of California Press.

 

Keohane, R. O. (1989). International Relations Theory: Contributions of a Feminist Standpoint. Millennium: Journal of International Studies, 18(2), 245-253.

 

Ruiz, T. (2005). Feminist theory and international relations: the feminist challenge to realism and liberalism. Soundings Journal, 1-7.

 

Tickner, J. A. (1997). You Just Don’t Understand: Troubled Engagements between Feminists and IR Theorists. International Studies Quarterly, 41(4), 611-632.

 

Tickner, J. A. (2001). Gendering World Politics: Issues and Approaches in the Post–Cold War Era. New York: Columbia University Press.

 

Tickner, J. A. (2004). Feminist responses to international security studies. Peace Review, 16(1), 43-48.

 

Weber, C. (1994). Good Girls, Little Girls, and Bad Girls: Male Paranoia in Robert Keohane’s Critique of Feminist International Relations. Millennium: Journal of International Studies, 23(2), 337-349.

 

Weber, C. (2001). Gender: is gender a variable? (Fatal Attraction). Em C. Weber, International Relations Theory: A critical introduction (pp. 81-101). Oxon: Routledge.

Referências bibliográficas

Balzacq, T., & Baele, S. J. (22 de dezembro de 2017). The Third Debate and Postpositivism. Obtido de Oxford Research Encyclopedia of International Studies: https://oxfordre.com/internationalstudies/view/10.1093/acrefore/9780190846626.001.0001/acrefore-9780190846626-e-104

 

Shepherd, L. J. (2009). Gender, Violence and Global Politics: Contemporary Debates in Feminist Security Studies. Political Studies Review, 7, 208–219.

 

Sjoberg, L. (2009). Introduction to Security Studies: Feminist Contributions. Security Studies, 18(2), 183-213.

 

Tickner, J. A. (2006). Feminism meets International Relations: some methodological issues. Em B. A. Ackerly, M. Stern, & J. True, Feminist Methodologies for International Relations (pp. 19-41). Cambridge: Cambridge University Press.

 

Youngs, G. (2004). Feminist International Relations: a contradiction in terms? Or: why women and gender are essential to understanding the world ‘we’ live in. International Affairs, 80(1), 75-87.