A Geopolítica da Guerra Fria

As décadas da Guerra Fria trataram-se de um período no qual a área da Geopolítica foi, em grande medida, negligenciada e percecionada com uma profunda suspeição, devido à sua associação ao nazismo (na pessoa de Karl Haushofer) e ao próprio determinismo geográfico manifesto nas análises dos seus autores clássicos, que passa a ser fonte de várias críticas. Para muitos, esta disciplina, alicerçada neste inflexível determinismo, teria sido uma das causas a potenciar as políticas expansionistas e de agressão que levaram à Segunda Guerra Mundial (Smolen, 2012).

A rigidez dicotómica clássica “terra vs. mar” acaba por abrir caminho à entrada em jogo do poder aéreo, nas obras de autores como George T. Renner ou Alexander de Seversky. Para este último, o ar constituía uma ordem de poder totalmente distinta da terra e do mar, revelando-se determinante para defender o território dos Estados Unidos e dos seus aliados ocidentais. A si coube a formulação da Teoria da Zona de Decisão (uma espécie de teoria geopolítica do poder aéreo): o Mundo é dividido em duas grandes elipses, com cada uma a corresponder aos raios de ação das forças aéreas soviética e norte-americana; a área de sobreposição destas duas elipses (a denominada Zona de Decisão), correspondente à Europa, ao Noroeste de África e ao Atlântico, seria a zona na qual um eventual conflito Leste-Oeste acabaria por ser decidido. Neste sentido, os EUA deveriam conduzir a sua defesa a partir do Hemisfério Ocidental, abandonando as suas bases ultramarinas (à exceção das situadas no Reino Unido) e evitando pequenos conflitos que pudessem ir minando a sua força.

Como nota Owens (Owens, 1999), este “isolacionismo aéreo” proposto por de Seversky acabou por ser, em grande medida, rejeitado pelos decisores políticos e estrategas norte-americanos; estes, na linha clássica de Spykman, continuaram a acreditar que o Hemisfério Ocidental ficaria progressivamente vulnerável a ataques soviéticos se os EUA não ocupassem e defendessem zonas fulcrais do Rimland, com vista à contenção da URSS (a denominada política de containment).

As décadas da Guerra Fria foram também testemunhas de um outro importante desenvolvimento na área da Geopolítica, que viu o seu corpo analítico e conceptual a ser alargado para englobar a perspetiva marxista, pela mão de Immanuel Wallerstein. Com a sua famosa Teoria do Sistema-Mundo, Wallerstein, partindo de uma análise histórica do sistema capitalista mundial desde o séc. XVI, divide o Mundo em três fragmentos: o centro, a periferia e a semiperiferia. O mundo ocidental corresponde ao centro do sistema internacional, que estabelece uma relação de exploração com os Estados da periferia; já a semiperiferia corresponde aos Estados que se situam a “meio” da hierarquia de poder internacional, tanto podendo ser explorados como, em condições favoráveis, exploradores dos Estados periféricos. Para Wallerstein, o comércio mundial acaba por beneficiar predominantemente os Estados do centro, que obrigam os Estados periféricos a seguir as regras do mercado livre internacional, recorrendo, para o efeito, a organizações como a Organização Mundial do Comércio ou o Fundo Monetário Internacional.

Já Saul B. Cohen elabora outra influente teoria, que tem vindo a ser atualizada até aos dias de hoje (Cohen, 2014). O autor divide o Mundo em dois grandes reinos geoestratégicos que, por sua vez, são divididos em várias regiões geopolíticas, relativamente homogéneas em termos culturais, económicos e políticos; são estas regiões que, segundo Cohen, são a base da emergência dos centros de poder no seio do seu respetivo reino geoestratégico. Neste sentido, temos, por um lado, o reino geoestratégico dependente do comércio marítimo (ligado aos EUA e compreendendo em si cinco regiões geopolíticas) e, por outro lado, o reino geoestratégico continental euro-asiático (ligado à URSS e compreendendo em si duas regiões geopolíticas).

O autor define, igualmente, os designados Shatterbelts, que correspondem às regiões geopolíticas independentes de ambos os reinos geoestratégicos e que, geograficamente, atuam enquanto as suas áreas de contacto: o Médio Oriente, o subcontinente indiano e o Sudeste asiático. Estes espaços, para Cohen, são grandes focos de tensões políticas, neles existindo a maior possibilidade de um conflito internacional vir a ser deflagrado. Já os Gateways (um conceito introduzido pelo autor já na sequência do final da Guerra Fria), por seu turno, são áreas que põem em contacto pessoas, bens e ideias de territórios com diferentes características, atuando enquanto comunicadores e, consequentemente, podendo estabilizar a competição internacional. Os países da Europa Central e de Leste (pós-soviética) formam um dos Gateways, e os das Caraíbas o outro (Smolen, 2012). É possível um Shatterbelt tornar-se num Gateway, bem como o oposto, com um Gateway a transformar-se num Shatterbelt (para Cohen, este último cenário poderá vir a suceder na Europa de Leste, com a progressiva degeneração das relações Este-Oeste).

Finalmente, abaixo das regiões geopolíticas, situam-se os Estados propriamente ditos, hierarquicamente ordenados segundo o seu poder relativo e localização geográfica, com os mais poderosos entre si a dominarem ou a competirem pelo domínio das várias regiões.

Podemos, assim, dizer que se a Geopolítica Clássica constituiu uma reflexão em torno da forma como os Estados poderiam garantir a sua expansão e, no limite, a sua hegemonia, a Geopolítica da Guerra Fria passou a ter como desígnio a gestão do Equilíbrio de Poder, num mundo bipolar pautado pela competição estratégica entre os Estados Unidos e a União Soviética que só se viria a dissolver no final do século.

Ricardo Neves
Aluno de Mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais

NOVA-FCSH

Referências

Smolen, K. (2012) ‘Evolution of Geopolitical Schools of Thought’, Teka Kom. Politol. Stos. Międzynar. – OL PAN, 7, pp. 5-19.

 

Owens, M. T. (1999) ‘In Defense of Classical Geopolitics’, Naval War College Review, 52(4), pp. 59-76.

 

Cohen, S. B. (2014) Geopolitics: The Geography of International Relations. Maryland: Rowman & Littlefield Publishers.