As Origens da Geopolítica – A Geopolítica Clássica

Nas últimas décadas do séc. XIX, é desenvolvida uma ideia que se viria a revelar crucial para o surgimento da Geopolítica: território é poder. Os autores clássicos desta emergente área entendiam, precisamente, que o território e a sua vastidão eram um dos grandes atributos do poder estatal, num olhar específico sobre as Relações Internacionais que deixava o Estados, entendidos enquanto organismos políticos, suspensos no espaço.

Friedrich Ratzel (1844-1904), um dos arquitetos da Geografia enquanto estudo científico e antecessor direto da Geopolítica, foi um dos primeiros a olhar para os Estados desta forma: tal como os organismos, os Estados precisariam de crescer, caso contrário declinariam e, eventualmente, seriam destruídos, num modelo de análise que, obviamente, tinha fortes raízes na Biologia (Castro, 2005). Inspirado pelas ideias de Ratzel, o sueco Rudolf Kjellen (1864-1922) cunha o termo “Geopolítica”, vendo-a como um ramo autónomo da Ciência Política. Pegando na Teoria Orgânica do Estado de Ratzel, Kjellen argumenta que os Estados fortes com áreas de soberania limitadas são dominados pelo imperativo político de dilatar os seus territórios por via da colonização, união ou conquista; já os Estados de menor dimensão estão simplesmente destinados ao desaparecimento. Desta forma, Kjellen considerava que o futuro, em termos de relações de poder, iria consistir na afirmação de grandes Estados e na menorização de Estados mais pequenos.

A Geopolítica surgiu, neste sentido, profundamente ligada à ideia de que os Estados, caso pretendessem sobreviver e desenvolverem-se, seriam forçados a competir constantemente por terra, recursos, mares, estreitos e passagens, o que fez com que a principal tarefa das teorias geopolíticas clássicas fosse, precisamente, a análise da importância estratégica de determinados territórios. É importante, de igual modo, destacar que a expansão desta nova área muito beneficiou do facto de, até à Segunda Guerra Mundial, o Equilíbrio de Poder (que, de europeu, passava a mundial) ter sido pautado pela multipolaridade, o que tornava propício uma espécie de “clima de pré-guerra” entre as grandes potências, com tensas disputas por territórios, mercados e recursos (Vesentini, 2005).

Pode-se considerar que a Geopolítica Clássica se foi desenvolvendo, em grande parte, em torno de uma oposição Mar-Terra: os teóricos do poder continental (ou terrestre) assumiam que os Estados mundialmente dominantes seriam os continentais, situados na Eurásia, enquanto os teóricos do poder marítimo assumiam, pelo contrário, a dominação dos Estados marítimos sobre os continentais, exaltando as virtudes do poder marítimo.

Um dos autores deste último campo foi o norte-americano Alfred Thayer Mahan (1840-1914), que, em 1890, elabora a Teoria do Poder Marítimo. Ao analisar as potências que tiveram, a dada altura na História, um grande poder, Mahan considera que o seu sucesso se ficou a dever ao desenvolvimento de uma capacidade marítima assente em três grandes vetores: a existência de uma marinha de guerra competente; o controlo de chokepoints (pontos geograficamente sensíveis e nevrálgicos para a navegação mundial, como entradas em golfos ou em canais) e a existência de uma grande marinha mercante, que, salvaguardada pela marinha de guerra, garantisse o estabelecimento de importantes rotas comerciais. 

É da conjugação destes três fatores que, na ótica de Mahan, resulta o poder marítimo. Aliando-os a outros elementos fundamentais (como, por exemplo, uma posição geográfica maritimamente favorável, uma devida extensão territorial e uma acrescida população), Mahan acreditava que os geograficamente abençoados Estados Unidos seriam o sucessor geopolítico do Império Britânico.

Alguns anos mais tarde, o britânico Halford Mackinder (1861-1947) elabora, por sua vez, a Teoria do Poder Continental ou Terrestre, num influente artigo denominado The Geographical Pivot of History (Mackinder, 1904). Apercebendo-se do rápido desenvolvimento de formas de transporte continental, Mackinder preocupa-se que a histórica supremacia do poder marítimo possa estar a ser posta em causa, com a interligação dos vastos espaços do interior do continente euroasiático. É precisamente no centro deste continente que se localiza um vasto território denominado Heartland: no sentido norte-sul, estende-se do Oceano Ártico aos desertos da Ásia Central e, no sentido oeste-leste, corresponde a todo o espaço ocupado pelas estepes continentais, que avançam para o coração da Sibéria.

Este gigantesco núcleo continental possuía, na ótica de Mackinder, várias características fundamentais, que o tornavam numa espécie de “fortaleza mundial inacessível”: um isolamento em relação a mares navegáveis, protegendo-o do poder marítimo das potências insulares; uma topografia plana, favorável para as comunicações terrestres; inúmeros rios navegáveis no seu interior e uma abundância de recursos agrícolas e minerais. Para Mackinder, foram estas características que, ao longo da História, motivaram inúmeros conquistadores a tentarem a sua sorte no domínio deste território (como Napoleão, por exemplo). Quem o dominasse, controlaria a Eurásia; quem dominasse a Eurásia, controlaria o Mundo.

Assim, Mackinder coloca em xeque a Teoria do Poder Marítimo de Mahan, ao atribuir ao poder terrestre (na forma do Heartland) um papel estratégico fundamental na política de poder das grandes potências (Mello, 1994).

A influência destas ideias pode ser vista em figuras como o alemão Karl Haushofer (1869-1946), que fundiu a Teoria do Estado Orgânico de Ratzel com a análise de Mackinder: a Alemanha deveria, no seu entender, reencontrar a unidade do seu espaço cultural, expandindo-se para a Europa de Leste, ao mesmo tempo que deveria, enquanto potência continental, contrariar a influência da potência marítima britânica, por via de uma aliança com a potência do Heartland, a União Soviética. Esta aliança acabaria por se vir a concretizar em agosto de 1939, com a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop.

Em 1942, Nicholas Spykman (1893-1943) também funde algumas destas ideias, numa tentativa de apurar qual o papel que os EUA deveriam assumir no Mundo, na eventualidade de vencerem a 2ª Guerra Mundial. Neste sentido, constrói a teoria do Rimland: a questão de controlar o Heartland deixa de ser enfatizada, uma vez que a URSS já garantia um domínio efetivo sobre este território, para passar a ser como conter a potência que o controla, criando uma cintura (rim) à sua volta que impossibilitasse a sua expansão para outros territórios. Com efeito, no entender de Spykman, não era o dono do Heartland que dominaria o Mundo, mas sim a potência que controlasse o Rimland circundante.

Tratou-se de uma teoria que, menos de uma década mais tarde, se materializaria sob a forma da política de containment norte-americana, com vista à contenção da URSS, marcando o início da Guerra Fria e o fim do período da Geopolítica Clássica. Spykman pode mesmo ser visto como uma figura que assinala o fim deste período, sobretudo pela maneira como dissolveu a oposição Mar-Terra tão característica das análises clássicas: a potência do futuro não seria nem terrestre, nem marítima, mas sim anfíbia, tendo, por isso, de se defender em cenários marítimos, terrestres e aéreos.

Ricardo Neves
Mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais

NOVA-FCSH

Referências

Castro, I. E. (2005) Geografia e Política: território, escalas de ação e instituições. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

 

Mackinder, H. J. (1904) ‘The Geographical Pivot of History’, Geographical Journal, 23(4), pp. 421-437.

 

Mello, L. I. A. (1994) ‘The geopolitics of land power revisited’, Lua Nova Revista de Cultura e Política, 34.

 

Vesentini, J. W. (2005) Novas Geopolíticas. São Paulo: Contexto.