Ventos de esperança sopram de São Francisco

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A geopolítica contemporânea está intrinsecamente associada a um fenómeno, a globalização. A globalização encurtou distâncias, contribuiu para a redução da pobreza global, impulsionou a partilha de conhecimentos e reforçou a interdependência. 

A dinâmica geopolítica global é pautada por uma competição geoestratégia de dois atores, os Estados Unidos da América, que ocupam o topo da hierarquia de poder mundial, e a China, potência revisionista que almeja edificar uma ordem mundial que lhe confira mais proeminência. No quadro de equilíbrio de poder mundial a inação é em si mesmo uma forma de ação e a neutralidade é nada mais do que sinónimo de fragilidade.  

A democracia liberal – alicerçada em valores como a liberdade, pluralismo e respeito pela dignidade humana – confere a oportunidade aos seus rivais de contestarem a sua hegemonia no que à organização político-económico diz respeito. A primazia no sistema internacional dos Estados Unidos é em virtude disso uma uma posição pautada por uma profunda fragilidade. Paradoxalmente a normatividade do pluralismo a que a democracia liberal está ancorada presumivelmente será o ponto de partida do seu eclipse. O filósofo Karl Popper na sua obra “The Open Society and Its Enemies” denomina o fenómeno como o Paradoxo da Tolerância. É um paradoxo desta natureza que se vislumbra no horizonte: a tolerância ilimitada levará ao desaparecimento da tolerância.

O modelo americano orientado por valores morais que alia uma democracia liberal, um Estado de Direito e uma Economia de Mercado, opõe-se ao híbrido chinês que preserva a dimensão ditatorial, dada a existência de um único partido político e rompe com a tradição histórica e converte-se aos benefícios e oportunidades associados a uma Economia de Mercado. O sucesso do regime de Pequim está subjacente ao abandono de posições dogmáticas e abraço ao pragmatismo, personificado pelas vantagens que a Economia de Mercado confere a qualquer Estado que se deixe persuadir pela janela de oportunidades que esta proporciona 

A China foi inequivocamente um dos grandes vencedores da globalização. A multiplicação por quarenta vezes o PIB no espaço temporal de quatro décadas não é uma conquista de somenos.  O crescimento económico exponencial da China pode ser explicado por um conjunto de fatores em que se incluem as reformas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978 que deram início a um modelo que assumiu o nome de socialismo de mercado. 

Existe um mundo pré e pós crise financeira de 2008. No plano geopolítico uma sucessão frenética de acontecimentos teve lugar desde esse momento: novos alinhamentos geopolíticos se impuseram, o equilíbrio de poder global sofreu inexoravelmente uma transformação e o protecionismo ganhou um novo fôlego.

No final da década de 80 do século XX a História parecia ter conhecido o seu fim – triunfara um regime político e um sistema económico – a democracia liberal e a economia de mercado respectivamente. Mais cedo do que tarde todas as latitudes haveriam de se converter. Três décadas volvidas da tese de Fukuyama a deslocação do nosso olhar atento do Ocidente para o Oriente torna evidente as limitações da proposição de Fukuyama. Os campos de confrontação entre o Ocidente e o Oriente não se esgotam no domínio moral e político, o soft power utilizado para gerar animosidade face ao regime não deve ser subestimado. 

A aspiração da China à hegemonia é conhecida por todos, se persistissem dúvidas estas dissiparam-se em 2017 quando Xi Jinping reforçou a ideia de que pretende ser o”guia do mundo na formação de uma nova ordem moral”. O soft power tem sido um dos principais instrumentos utilizados para a projeção e reforço da sua esfera de influência. Henry Kissinger, Ex-Secretário de Estado dos EUA, descreve-o como “a habilidade de convencer os outros a seguir um caminho, utilizando a atração e persuasão em vez da coação.” A ampliação do prestígio chinês no xadrez político mundial tem incidido em dois eixos: a diplomacia cultural e a cooperação económica. A viçosa promoção da dimensão cultural de uma das civilizações mais remotas do mundo, que os historiadores admitem existir há mais de quatro milénios, tem sido uma das estratégias prosseguidas aliada a iniciativas de cariz económico de que é exemplo o “Belt and Road Initiative”. Este projeto visa, através de investimentos infraestruturais, unir pontos estratégicos nos quatro cantos do mundo viabilizando assim uma maior conectividade e mais expressiva dinamização das trocas comerciais. A maior prova do sucesso da sua estratégia é o ganho de atratividade do seu modelo político-económico nos quatro cantos do mundo, em África, na América Latina e na Ásia. A capacidade draconiana de aliar o autoritarismo político a uma aproximação a uma economia de mercado e uma vigorosa afirmação internacional garante não só o crescimento económico como a diminuição da conflituosidade – princípios consagrados no contrato social firmado entre o regime e os cidadãos que são a fonte de legitimação do regime. 

O boom chinês teve lugar a um ritmo estonteante e, não só a nós apanhou de surpresa, os próprios chineses assistiram com incredulidade e relutância à escalada do dragão. Na órbita do poder em Pequim vibra-se de entusiasmo: no espaço temporal de três décadas a República Popular da China deu o grande  salto em frente, que Mao Tsé-Tung não consigara dar. Xi Jinping reconciliou-se com o passado, reconheceu a prossecução de abordagens erradas e ascendeu ao cargo mais prestigiante na República Popular da China em 2013.  Dados do The Brooking Institution revelam que 20% da classe média mundial vive na China e segundo o Banco Mundial o país conseguiu a proeza de tirar 800 milhões de pessoas da pobreza. 

Não tardou para que a questão em cima da mesa não fosse se a China ultrapassaria os Estados Unidos em PIB per capita mas quando isso teria lugar. Um artigo publicado em 2003, pelo banco Goldman Sachs, previa que o ano decisivo seria 2041. Na altura da crise financeira global de 2008, essa previsão parecia tímida. O fosso entre a China e a América diminuiu muito mais rapidamente do que o esperado, devido às oscilações da América, ao crescimento resiliente da China e à valorização constante do yuan. Em 2010, o PIB da China representava 40% do norte americano. A ONU prevê que a população da China entre os 15 e os 64 anos diminuirá em mais de 100 milhões na década de 2030. Se o PIB da China não ultrapassar o dos EUA até meados dessa década, à luz das previsões da Capital Economics poderá nunca o conseguir. Já a OCDE prevê que a ultrapassagem terá efetivamente lugar durante a terceira década do século XXI. A China de Xi Jinping forçou-nos a pensar no impensável porque os milagres afinal de contas podem mesmo acontecer.

A relação entre as duas maiores potências do mundo tem sofrido algumas flutuações nas últimas décadas e é hoje encarada por mim com um otimismo cauteloso. O pico das hostilidades entre as duas potências foram atingidas na década de 90 do passado século, aquando do massacre da Praça da Paz Celestial, momento em que se tornou evidente que para o regime chinês liderado à época por Yang Shangkun os direitos humanos não eram dignos de apreço. A chama de esperança que se havia acendido no seio do regime apagou-se com tamanha celeridade quantos os gritos de milhares foram silenciados na Praça Tiananmen no fatídico dia 4 de junho de 1989.

No início do século, em 2001, a integração da China na Organização Mundial de Comércio  é um marco significativo digno de nota.  O encetamento da segunda década do século XXI é marcado pelo regresso da vigorosa competição geopolítica e pela formação de uma espiral de tensão. 

A chegada de Donald Trump configura um turning point na relação sino-americana. Um mundo liderado pelo regime de Pequim, sem uma âncora moral aos valores intrínsecos à democracia liberal será inequivocamente um mundo inseguro, temível e imprevisível. Donald Trump, consciente desse facto, em 2017 declarou a China um rival estratégico – não deixa de ser curioso que uma das administrações mais caóticas que a White House já conheceu seja aquela que teve a capacidade de reconhecer um axioma tão evidente quanto este. A ideia não é inédita, a sua assunção por um inquilino do cargo mais alto na política norte-americana sim. Kissinger na sua magistral obra literária “On China” reflete sobre a imperatividade de desenvolvimento de uma estratégia global para lidar com a China. As tensões durante a administração de Trump abrangem uma vasta paleta temática: vão de guerras comerciais, a disputas tecnologias passando por acusações de espionagem. A doutrina de política externa de Trump no que à China diz respeito configura a ruptura mais abrupta desde a ida de Richard Nixon à China em 1972 – momento de extrema importância na história diplomática dada a normalização das relações entre os dois países num contexto pautado por uma profunda polarização como foi o período da Guerra Fria. 

A tumultuosa transição de poder na White House em 2021, contrariamente àquilo que podia ser expectável, no que à China diz respeito tem sido seguida uma linha de continuidade. Não obstante as diferenças significativas no estilo diplomático de Biden a abordagem face ao gigante asiático não sofreu alterações significativas. O respeito pelos direitos humanos continua a estar no topo das prioridades norte-americanas, dossiê que para a China não passa de uma mera nota de rodapé e o respeito pela soberania de Taiwan regressou à agenda diplomática entre os dois países, que partilham visões distintas quanto ao estatuto da ilha Formosa. 

É com este pano de fundo que os presidentes chinês e americano se encontraram fugazmente durante umas singelas quatro horas a 15 de novembro na cidade de São Francisco, no estado da Califórnia. O ponto de partida de uma relação pautada por ângulos retos e arestas bicudas foi o encontro de um mínimo denominador comum. A reunião teve lugar à margem da cimeira da Organização de Cooperação Económica Ásia Pacífico (APEC). “A ausência de diálogo gera desconfiança, amplifica a espiral de tensão e, acima de tudo, aumenta o risco de uma crise entre as duas potências”, foram as palavras proferidas por Joe Biden. Já o líder asiático no seu habitual tom sereno garantiu que “o planeta Terra é grande o suficiente para os dois países terem sucesso”. Na reunião os homólogos chinês e norte americano adotaram uma postura harmoniosa e um tom conciliatório. As declarações dos líderes de Washington DC e Pequim permitirão augurar que, não obstante a existência de diferenças, os líderes dos dois países percepcionam o diálogo como uma forma de encontrar um common ground que garanta a coexistência pacífica. 

O encontro foi um momento oportuno para a redefinição e negociação dos moldes em que tem lugar a competição estratégica. As conversações incidiram sobre três temas em concreto: defesa, finanças e comércio. A persistência de restrições às trocas comerciais nomeadamente os embargos à exportação de produtos de alta tecnologia para empresas chinesas, a relevância de Taiwan nos equilíbrios de poder mundial, que enfrentará eleições no primeiro mês de 2024, e a existência de focos de guerra no leste europeu e no Médio Oriente,  que colocam de lados opostos da barricada os dois regimes, foram os tópicos que animaram a discussão, nenhum momento melhor do que um frente a frente para a sua abordagem. 

Os velhos amigos, que se conheceram em 2011 quando ambos ocupavam o cargo de vice-presidente, anuíram em enquadrar a competição geopolítica no campo de concorrência saudável, sem transgredir linhas vermelhas que tornem inevitável o conflito. Os sorrisos deliberados, passando pela delicadeza das palavras proferidas em público foram reveladores do desígnio de prossecução de uma relação inserida num quadro sereno. 

As conversações entres os dois lados do pacífico configuram uma reaproximação diplomática que deve fazer regozijar de júbilo qualquer idealista. Os laços que unem Pequim e Washington continuam a ser fortes o suficiente para evitar uma ruptura categórica, que diga-se de passagem causaria mais mal do que bem. A adoção de uma estratégia “Nós VS Eles” não configura a melhor opção, resultaria no afastamento e hostilização de parte dos aliados americanos, nomeadamente europeus, para quem a China representa hoje um parceiro prestigiado. Se confrontadas com a escolha China VS USA, a decisão de grande parte dos países está longe de ser previsível.

A administração Biden partilha da convicção de que a China está mais interessada no domínio do que na coexistência, não obstante está consciente de que o corte de pontes comunicacionais que unem os dois lados do Pacífico seria contraproducente e uma espiral de tensão  improfícua para as duas potências. Segundo um estudo publicado pelo Chicago Council on Global Affairs, 58% dos americanos perceciona a China como o maior fator de risco à sobrevivência dos Estados Unidos – tal premissa é elucidativa e torna clarividente as razões pelas quais os últimos inquilinos da White House têm mantido uma postura combativa. Aos Estados Unidos cabe a árdua tarefa de atenuar as ambições chinesas e simultaneamente cooperar em áreas estratégicas, tentando criar um quadro de relacionamento harmonioso. Antes da cimeira da APEC, a administração declarou que abandonaria o acordo de comércio digital, plano integrante no Quadro Económico do Índo-Pacífico que almejava substituir a Parceria Transpacífica assinada pelo seu antecessor democrata Barack Obama e abandonada por Donald Trump aquando da sua chegada à presidência. 

É digno de nota uma frase proferida por Joe Biden durante a conferência de imprensa; quando questionado se confiava no seu homólogo chinês, o presidente incumbente cautelosamente faz alusão a um velho ditado “Confiar mas verificar” – afirmação reveladora da prevalência de uma défice de confiança. 

O encontro evidentemente não foi suficiente para encontrar um ponto de concórdia em todas as temáticas que são alvo de alguma conflituosidade, não obstante num tempo em que a polarização e o tribalismo dominam a diplomacia, este é um momento louvável. Na era da incerteza, o centro da nossa rosa dos ventos torna-se invariavelmente a prudência. Os líderes chinês e americano, dotados de um pragmatismo notável, perceberam que transformar uma batalha geopolítica numa luta maniqueísta entre a democracia e a autocracia teria como corolário um ponto sem retorno de hostilidade e um impasse estratégico. 

O confronto geopolítico é inevitável e a consciência do peso da China no tabuleiro de poder mundial é remota. Napoleão Bonaparte, estratega francês, a uma distância temporal de dois séculos, em 1818 proferiu a seguinte afirmação : “Quando a China acordar, o mundo estremecerá”. Se foi profecia ou casualidade é impossível sabê-lo, uma coisa é certa nenhuma outro conjunto de palavras descreve com tamanha precisão o momento político em que nos encontramos. 

O tempo da unipolaridade há muito que findou e tão cedo não regressará. O mundo ocidentalocêntrico tem os dias contados e mais cedo do que tarde assumirá uma dimensão sinocêntrica, resta saber quando. A supremacia global transformou-se num confronto civilizacional entre unidades geopolíticas que não só não comungam os mesmos valores como possuem percepções antagónicas face ao futuro que se vislumbra no horizonte, o otimismo draconiano opõem-se à descrença ocidental. A disciplina e obediência chinesas opõem-se à liberdade americana. A predileção pelo multilateralismo contrasta com o desapreço parcial americano face a este. 

As democracias liberais somente serão triunfantes na luta titânica que se trava no campo da geopolítica se convergiram em torno dos ideias que à sua existência estão subjacentes e não subverterem o poder que o voto lhes conferiu para fins menores, contribuindo assim para q a descrença na democracia enquanto melhor regime à exceção dos demais. O posicionamento das democracias no mundo e as estratégias que adotarão para garantir a sua manutenção serão determinantes. O amanhã geopolítico é decidido hoje e o espírito democrática indomável que enchia o balão moral ocidental de otimismo há pouco mais de duas décadas não pode esvaziar-se  indelevelmente. 

O boom chinês configura uma de duas: uma ameaça ou uma oportunidade. Um axioma é certo, a ela sermos alheios não é a solução. Como diria o provérbio chinês “Se não podes mudar o vento ajusta as velas do barco para chegares onde queres”. No final do dia, a realidade triunfa sempre e até os mais radicais se convertem à moderação. 

Natacha Pernas. 

Natural de Almada, 20 anos.

Estudante de Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa.

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