A Nova Política Externa da Arábia Saudita

 As opiniões expostas neste artigo vinculam exclusivamente os seus autores.

A política externa da Arábia Saudita tem atraído atenção internacional fruto de uma alteração da sua postura – passou de um ator percecionado como tendo tendências imperialistas para um ator com uma postura diplomata (Saudi Arabia | History, Map, Flag, Capital, Population, & Facts, 2023). A adoção de uma política externa mais pragmática e com uma rotura evidente com a do pós-Primavera Árabe, demonstra a vontade de Riad de se adaptar à evolução da ordem internacional, reduzir riscos de segurança e atingir os objetivos estabelecidos na Visão 2030 – iniciativa que tem como objetivo a redução da dependência petrolífera e transformação da Arábia Saudita num destino turístico, centro financeiro e num dos principais exportadores de energia limpa (Adami, 2020; Kozłowski, 2023). Adicionalmente, os ataques em 2019, com drones e mísseis a instalações petrolíferas em Abqaiq e Khurais, amplamente atribuídos ao Irão, demonstraram a vulnerabilidade da Arábia em qualquer potencial confronto militar, e marcaram o ponto de viragem na política externa saudita. A relutância dos Estados Unidos da América (EUA) em responder, foi vista como sinal de que não seria possível confiar em Washington para defender a sua segurança e a da indústria petrolífera (Kingdom of Change: Saudi Arabia’s Evolving Foreign Policy, n.d.). Para além disso, em 2015, os seus aliados militares tradicionais, Egito e Paquistão, recusaram-se a participar na Coligação Árabe liderada pela Arábia Saudita contra os Houthis no Iémen, o que levou os líderes sauditas a restruturarem os seus compromissos regionais e internacionais (Qaed, 2023).

 

A política externa, após a Primavera Árabe, seguia políticas regionais agressivas e por vezes imprudentes. No entanto, a partir de 2020 esta sofre uma alteração motivada pela: i) redução sistemática da posição dos EUA no Médio Oriente evidenciada na relutância em atuar na região; ii) perceção interna de que era necessária uma mudança na forma de atuar pois os ganhos obtidos a curto prazo não eram satisfatórios; e iii) a procura de estabilidade para desenvolvimento da Visão 2030 (Kozłowski, 2023). Neste sentido, e reconhecendo que a sua política de confronto se tornou constrangedora e dispendiosa, envolveu-se em esforços de reconciliação com vários países da região (Qaed, 2023). Em 2021 e 2022, restabeleceu relações com Doha e Ancara e entrou em tréguas com os Houthis (Qaed, 2023).

 

Para além disso, para atingir os seus objetivos procurou novas abordagens aos desafios existentes e parceiros alternativos aos EUA. Deste modo, associaram-se à Rússia em 2015 para que ambos os países pudessem controlar os preços do petróleo e obter as receitas necessárias para financiamento da Visão 2030 (Adami, 2020; Qaed, 2023). Esta prioridade ficou evidente quando a OPEP+ anunciou um corte na produção de petróleo de dois milhões de barris diários, o que causou indignação na administração Biden (Kingdom of Change: Saudi Arabia’s Evolving Foreign Policy, n.d.). Simultaneamente, intensificou a cooperação com a China, que se traduziu na adesão à Organização de Cooperação de Xangai e realização em junho de 2023, da 10.ª Conferência Empresarial Árabe-Chinesa para explorar oportunidades de expansão e investimento (Kozłowski, 2023). Nesta, a Arábia Saudita afirmou inequivocamente a sua vontade de cooperar estreitamente com a China a nível económico, independentemente da insatisfação dos EUA (Kozłowski, 2023). Na cimeira, os dois Estados anunciaram investimentos bilaterais no valor de 10 mil milhões de dólares em vários setores, incluindo a agricultura, exploração mineira, cuidados de saúde e novas tecnologias (Kozłowski, 2023). Manifestou ainda o seu interesse em aderir aos BRIC, que considera fundamental para a concretização da Visão 2030, uma vez que o Brasil, China e Índia estão entre os maiores consumidores de petróleo do mundo e o estreitamento das suas relações comerciais representaria ganhos significativos a curto prazo, oportunidades de investimento, acesso a novas tecnologias e conhecimentos para transformação da economia (Kozłowski, 2023; Saudi Foreign Policy Today | Middle East Policy Council, n.d).

 

A cooperação com a China tem-se estendido também à área de segurança após a recusa de Washington aos pedidos sauditas de compra de mísseis balísticos, devido ao desejo de evitar uma corrida armamentista na região (Qaed, 2023). Em dezembro de 2021, as agências de inteligência dos EUA informaram que a China ajudou os sauditas a produzir mísseis balísticos fabricados localmente e assinou um acordo para fabricar veículos aéreos não tripulados (UAVs) (Prowant, 2022). Os sauditas pretendem aumentar as suas capacidades de defesa aérea para intercetar principalmente ataques do Irão, que possui alguns dos mísseis balísticos mais avançados da região (Qaed, 2023; Prowant, 2022). Além disso, a promoção de uma indústria de produção em massa tornaria a Arábia Saudita um exportador de armas e reduziria os seus gastos com o orçamento de defesa (Qaed, 2023).

 

Já em março de 2023, a China mediou com êxito o acordo entre a Arábia Saudita e o Irão, tornando-se evidente que estava a começar uma nova era no Médio Oriente, caracterizada por um papel crescente da China e por uma vontade cada vez menor de continuar a ser um parceiro passivo dos EUA, que têm vindo a reduzir sistematicamente o seu envolvimento no Médio Oriente (Kozłowski, 2023; Prowant, 2022).

 

As ações de Riad são resultado de observações da situação internacional e da sua perceção de segurança no Médio Oriente e não de uma tentativa direta contra Washington. Embora as relações bilaterais tenham piorado desde que Biden assumiu a presidência dos EUA, o processo foi iniciado durante a administração Trump, em 2019 (Kozłowski, 2023). A principal razão de mudança estratégica é a tentativa de reforçar a sua posição e soberania. A Arábia Saudita pretende estar numa posição que lhe permita ter relações construtivas com todos os atores, incluindo potências que estão em desacordo entre si e em que os diferendos possam ser tolerados através de um acordo para discordar, de forma a atingir os seus objetivos de desenvolvimento internos.

 

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Referências Bibliográficas

 

Adami, A. (2020, November 21). Saudi Arabia’s foreign policy patterns based on 2030 vision. https://journal.iiwfs.com/article_120761.html?lang=en

 

Kingdom of Change: Saudi Arabia’s evolving Foreign Policy. (n.d.). Royal United Services Institute. https://rusi.org/explore-our-research/publications/commentary/kingdom-change-saudi-arabias-evolving-foreign-policy

 

Kozłowski, A. (2023, July 12). Strategic Changes in Foreign Policy Saudi Arabia. Are they Permanent? Casimir Pulaski Foundation. https://pulaski.pl/en/strategic-changes-in-foreign-policy-saudi-arabia-are-they-permanent-2/

 

Prowant, M. J. (2022, September 22). America must not lose Saudi Arabia to China. The National Interest. https://nationalinterest.org/blog/middle-east-watch/america-must-not-lose-saudi-arabia-china-204936

 

Qaed, A. A. (2023, May 10). From confrontational to subtle diplomacy: the reorientation of Saudi foreign policy. Gulf International Forum. https://gulfif.org/from-confrontational-to-subtle-diplomacy-the-reorientation-of-saudi-foreign-policy/

 

Saudi Arabia | History, Map, Flag, capital, Population, & Facts. (2023, October 25). Encyclopedia Britannica. https://www.britannica.com/place/Saudi-Arabia/Reign-of-King-Abdullah-2005-15

 

Saudi Foreign Policy Today | Middle East Policy Council. (n.d.). https://mepc.org/speeches/saudi-foreign-policy-today

 

 

 

Mariana Penetra 

Licenciada em Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Mestranda em Relações Internacionais – Estudos da Paz, Segurança e
Desenvolvimento na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Áreas de interesse: Política Externa, Geopolítica, Geoestratégia, Teorias das Relações Internacionais, Direito Internacional, Direitos Humanos, Segurança, Estudos da Paz, Cooperação e Desenvolvimento.

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